Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025: Palestra e Coletiva de imprensa

por em 19 de maio, 2026 Comente

Sendo a grande amante de shoujo e boy’s love que sou, eu não poderia perder a presença de um grande nome como Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025. A professora, crítica, pesquisadora e antiga editora da Chikuma Shobo é uma referência dentro dos estudos sobre mangá, principalmente os dos gêneros citados anteriormente.

“Evolução do boy’s love (BL) e sua relevância cultural” – Bate-papo no Auditório Ultra

Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025.

Era visível o quanto Yukari Fujimoto estava feliz por estar ali. Foi fácil notar isso desde o momento em que ela se apresentou como professora da Universidade de Meiji, especializada em temas como gêneros e LGBTQIA+. Ela introduziu o tema da palestra, boy’s love, e contou sobre a história do BL no Japão. Começando com uma explicação sobre as divisões por fases ao longo dos anos, essa palestra foi uma aula maravilhosa sobre o assunto!

O shounen-ai, que significa “amor entre meninos”, foi o ponto de início com a produção de publicações em revistas para o público feminino. Para mim, foi interessante aprender que a primeira obra dessa parte só existiu porque uma amiga da autora pediu para ela escrever sobre essa temática. E que foi por causa da fama de um único título que nasceu June, a primeira revista exclusiva de shounen-ai. Aqui, os personagens eram originais, e as narrativas eram dramáticas, mais pesadas e com finais tristes.

Após isso, conhecemos o termo yaoi, que surgiu dentro de um doujinshi. Um grande acerto da pesquisadora foi explicar todas as palavras abordadas, garantindo a inclusão de todos os que estavam presentes. Então, por ser uma sigla, a tradução de yaoi é algo como “não tem clímax, não tem fim e não tem significado“. Enquanto doujinshi é o nome usado para obras criadas por fãs, onde os autores escrevem de acordo com suas próprias vontades. Esse tipo de trabalho tinha três separações e os autores podiam escolher uma para fazer parte. Elas eram: taka (gavião) = até os dois irem para a cama, jaku (pavão) = durante o ato na cama e hatoha (pombo) = o depois do ato, ainda na cama. As pessoas escreviam e publicavam por conta própria, mas isso mudou por causa de Captain Tsubasa.

Acredito que alguém que lê e assiste BL não fica surpreso ao ver um shounen de esporte nessa posição. Imagino que foi surpreendente acompanhar o crescimento da popularidade dessa história sendo proporcional a quantidade de romances escritos por fãs usando os personagens da obra. Foi nesse momento que yaoi passou a significar “romance entre dois personagens masculinos“. Então, só consigo imaginar como foi viver esse período icônico, vendo o nascimento de uma nova era.

Dito isso, não é uma surpresa, para mim, saber que muitas escritoras de doujinshi começaram a criar histórias com enredos originais. Fujimoto citou Minami Ozaki, uma autora famosa quando o assunto era yaoi de Captain Tsubasa, o que a levou a escrever Zetsuai. Esse foi o estopim que tornou essas histórias conhecidas pelo mundo inteiro, nos alcançando do outro lado do planeta. A palestrante falou que, nessa época, surgiram os conceitos de seme x uke. Ambos significam, respectivamente, ativo e passivo. Já o x entre os nomes surgiu por volta de 1988 como regra de que o ativo sempre aparecerá primeiro ao escrever o nome do ship. Isso é lei dentro de fandom, dado que existem duas opções de shippar o mesmo casal, mudando quem é ativo e quem é passivo. Além disso, não especificar a preferência pode gerar até brigas.

Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025.

Confesso que eu acho engraçada essa briga por causa de posições em ships, mas é algo realmente levado muito a sério. Tão a sério que o bate-papo abordou algo que a Comiket, evento de doujinshi no Japão, faz. A organização coloca distância física entre áreas voltadas para um mesmo casal que tenha dinâmicas diferentes. Então, por exemplo, teve uma edição onde Sasuke x Naruto e Naruto x Sasuke estavam bem longe um do outro. E eles sequer eram o casal mais famoso do momento, eles ficaram em segundo lugar, pois o primeiro foi de Kakashi x Iruka.

Fujimoto contou que foi graças a criação do yaoi que a obrigação de criar personagens originais deixou de existir, como era na June. Agora, os autores podiam escrever doujinshi sobre seus personagens favoritos. O aumento desse tipo de narrativa obviamente chamou a atenção das editoras, o que resultou em um crescimento de revistas do gênero. “As autoras dessas novas revistas eram aquelas que normalmente já desenhavam doujinshi e eram recrutadas”, explicou a professora. Com isso, deu-se início a uma nova onda: o boy’s love. Enquanto June tinha obras mais pesadas, dramáticas e com finais tristes, o boy’s love mudou isso ao ampliar o foco em histórias felizes.

Junto com as mudanças, veio o reforço do papel de cada protagonista. Foi apontado um erro comum que é tentar equiparar uma relação heterossexual aos ativo e passivo dentro de um relacionamento homossexual. Esse é um problema que ainda vejo acontecendo no mundo real e na ficção. A pesquisadora disse existir essa tendência a achar que o passivo é sempre a “princesa” e o ativo é o “príncipe”. A verdade é que vemos exemplos diferentes disso ao adentrar espaços como selvagem ou sado. É fácil achar “príncipe” sendo o passivo dentro da variedade de títulos existentes. Ou seja, no BL é realmente importante definir quem é o que dentro de um casal, ainda mais ao considerar que o gênero se divide em várias subcategorias. Mas é ainda mais necessário não se agarrar a uma única ideia, justamente por causa da grande diversidade.

Yukari Fujimoto finalizou a palestra mostrando o mapa de uma exposição que ela ajudou a criar, A primeira exposição sobre boy’s love. O mapa mostrava eventos de BL que acontecem no mundo inteiro, incluindo a Poc Con no Brasil. Também houve menção às famosas salas de shounen-ai e shoujo-ai, que eram muito presentes nas edições mais antigas do AF.

Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025.

Não foi aberto para o público fazer perguntas, mas foi liberado para que a mediadora fizesse e ela acertou demais no assunto!

• Muitas vezes o BL é produzido por mulher e para mulher, e ele lida com questões LGBT+. Como você enxerga a interseção entre fantasia, empatia e identidade?

A resposta foi sobre como era incomum que BL se misturasse com temas LGBT+ do mundo real no Japão. Tanto que, nos anos 90, um homem gay chegou a dizer que gostaria que yaoi não existisse, o que me surpreendeu. Foi em um evento nos EUA em 2015 que a palestrante notou que ali não existia separação entre LGBTQIA+ e quem gostava de boy’s love. Ao pesquisar sobre outros países, isso apenas se confirmou, pois Fujimoto viu esses dois universos conectados em um mesmo ambiente. Outra prova disso foi em um evento presencial em Taiwan, onde ela percebeu que haviam estandes de BL com a bandeira do orgulho. Essa foi a forma que eles encontraram de apoiar a união estável LGBT+; muitos dos participantes da feira sairiam dali direto para um concerto de apoio à causa.

Ela explicou que, com o casamento gay sendo permitido nos EUA e o Japão sediando as Olimpiadas de 2017, causas LGBTQIA+ passaram a ter mais destaque no Japão. A intenção era ser um país com liberdade de expressão, então o governo começou a incentivar o autoconhecimento e o conhecimento geral sobre esse tema. Graças a isso, muitos jovens começaram a acompanhar e a gostar desse gênero e demografia, sendo que antes muitos gays atacavam o BL.

Yukari Fujimoto ainda disse acreditar que, antigamente, havia uma cultura de relacionamentos gays curtos. Isso era o resultado da falta de movimentos que apoiassem os direitos de liberdade. “Com o mundo tendo esse movimento para legalizar a união estável, eu acredito que as pessoas começaram a perceber que, sim, é possível que um casal gay tenha um relacionamento duradouro. No BL vemos a fantasia onde os dois se encontram e têm uma relação muito longa. Então, agora, esse sonho pode se tornar realidade.

O que antes eram duas categorias diferentes no Japão, a dos quadrinhos LGBT+ e a dos BL, hoje em dia é mais um conjunto.

Ao agradecer pela pergunta, a pesquisadora comentou que esse é exatamente o tema de sua atual pesquisa e, por isso, gerou uma explicação detalhada.

O último recado dela ao público foi um agradecimento por estar visitando o nosso país pela primeira vez. Ela disse estar feliz pelo acolhimento recebido e pelas respostas as suas pesquisas sobre o cenário brasileiro. Também contou o seu desejo de retornar ao Brasil em 2026 para participar da Parada do Orgulho LGBT+, por saber que é uma das maiores do mundo. Ou seja, ela realmente amou essa visita!

Coletiva de imprensa

Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025.

Antes da palestra, Yukari Fujimoto participou de uma rápida coletiva de imprensa. Nela, as perguntas foram sobre mangás, óbvio, mas também sobre tópicos como o curso que a entrevistada ministra em faculdade no Japão. Por se tratar de uma estudiosa de temas que eu amo, foi maravilhoso poder ouvi-la compartilhar um pouco de seu conhecimento.

Não fiquei surpresa ao ouvir “sim” quando perguntaram se ela tem conhecimentos sobre o meio acadêmico brasileiro ligado a quadrinhos. A pessoa citada como exemplo foi a professora Sonia Luyten (pesquisadora brasileira especialista em quadrinhos e cultura pop japonesa). A entrevistada não só conhece a brasileira, como pode conversar com Sonia no dia anterior.

Gostei que abordaram a variação nos relacionamentos representados em mangás. Dado que, antigamente, a grande maioria era composto por relações tóxicas e, hoje, temos bastante obras com casais mais saudáveis, algo perceptível para os fãs. Então, ouvir a opinião sobre esse tópico vindo de alguém que estuda o assunto foi fascinante. Fujimoto disse que, de fato, nos anos 70 a 80 existiam mais relacionamentos tóxicos. Isso acontecia pois era uma época onde se tinha a visão de que um casal de dois homens era algo mais dramático e másculo. Foi o surgimento do boy’s love, nos anos 90, que mudou isso. Logo, comportamentos românticos entraram em foco, com casais mais livres e gentis. Ela apontou que essa alteração é inegável, assim como hoje em dia vemos a volta desse lado mais agressivo e dramático. O que ela justifica como sendo devido a diversidade que foi criada para chegar na atualidade.

O tema shoujo apareceu através de um questionamento sobre os atuais prêmios japoneses. Ao que ela disse não ter a mesma percepção da pessoa que perguntou sobre existir problemas para justificar a mistura de demografias nas premiações.

Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025.

Uma das perguntas e respostas mais memoráveis foi “O que faz um mangá se tornar uma obra eterna para os leitores?”. Fujimoto respondeu acreditar que um mangá é formado pelo protagonista, então esse personagem precisa ser icônico. A ponto de os leitores conseguirem compartilhar sentimentos com ele. “Acredito que é através desse compartilhamento com diversas pessoas, de faixas etárias e países variados, que se consegue uma obra amada por todos.

Não me surpreendeu ouvir sobre IA durante a coletiva. No caso, foi para saber a percepção da entrevistada sobre como isso afeta a construção de narrativas no Japão. A professora disse que, assim como em vários outros espaços, muitos autores têm certo medo em relação à ferramenta. É o receio de ter suas narrativas, formas de escrever e desenhar assimilados pela IA, alimentando-a. Só que, sem surpresas, tem muitos autores utilizando essas ferramentas para agilizar o processo de construir um mangá. Um exemplo disso é o uso para criar rapidamente um plano de fundo (background). Ou seja, ela disse saber que, no momento, muitas pessoas ainda são contra a IA. Ao mesmo tempo, muitas não só são a favor, como já estão se adaptando ao uso frequente.

Achei muito importante a resposta dela sobre personagens femininas em animes e mangás terem ou não mudado com o passar dos anos. Principalmente por entrar na questão de se a professora considera que essas personagens continuam apenas servindo para completar elenco e ser par romântico do protagonista. “Acredito que essa percepção existe porque, provavelmente, você lê mais revistas feitas para o público masculino, como a Shounen Jump . Porque quando você pega obras voltadas para mulheres, sempre existiu a protagonista mulher, logo ela é a personagem principal. Mas é notável que, hoje em dia, as revistas voltadas para homens estão recebendo um aumento, gradativo, de protagonistas femininas.” Não fiquei surpresa com esse apontamento, dado que é um tema bastante discutido entre o público feminino que lê vários gêneros. Mas foi significativo ouvir isso de alguém que estuda tanto sobre esse tópico.

Yukari Fujimoto no Anime Friends 2025.

Eu tive a oportunidade de fazer uma pergunta, que foi:

• O BL nasceu dentro do shoujo, então eu gostaria de saber sua opinião: ainda dá para falar que eles são gêneros irmãos ou eles já se separam o suficiente para estarem em caminhos completamente diferentes?

Antigamente, eu acredito que sim, estava dentro desse gênero mais voltado para mulher. Mas agora já existem revistas voltadas apenas para mulheres, que são as de shoujo, e as só para BL. Então, como conceito talvez ainda esteja igual, porém como gênero nós já os separamos, sim.

Garantindo um bom encerramento, a última pergunta foi feita por uma estudante de animação. Ela queria saber se estudantes brasileiros podem cursar, por meio de intercâmbio, nas turmas que a professora ensina. A boa notícia é que sim, podem, desde que saibam japonês. Não só somos bem-vindos, como tinha uma brasileira na primeira turma que ela ministrou. Com mãe alemã e pai nikkei, a aluna seguiu nos cursos de Fujimoto até no mestrado.

Eu passaria horas ouvindo Yukari Fujimoto falar, pois fica claro a quantidade e nível de conhecimento que ela adquiriu em anos de pesquisas e estudos. Então agradeço a intérprete Ana Cristina Matsunami que acompanhou a convidada durante o Anime Friends 2025. Ana fez um ótimo trabalho ao facilitar a comunicação entre dois idiomas tão diferentes.

Ellen Silva
Amo animes, mangás e livros.
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